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23 avril

olho por olho

 
21 avril

Cores...

 
 
Desde pequena ouvi dizer que existem pessoas brancas, pretas, vermelhas e amarelas. E logo aí percebi que deveria ter algum tipo de daltonismo estranho ainda não descoberto, já que a única diferença da pele das pessoas de que me apercebia era o tom... Em todas as outras coisas tenho uma visão semelhante à maioria, mas as cores de pele que um ser humano pode ter sempre foram uma incógnita para mim... Talvez por isso que nunca tenha gostado muito de rótulos... Não percebia muito bem porque gozavam com o meu amiguinho e o chamavam de preto... gozar é injusto e feio... preto era uma cor que tanto os meus pais como as minhas professoras me tinham ensinado a distinguir, e eu sempre acertava, mas a cor do meu companheiro de brincadeiras eu não conseguia distinguir, não via o preto que me tinham ensinado que era a cor que eu via no escuro... o escuro assustava-me tanto... o meu amigo não... anos mais tarde, comecei a interpretar estes rótulos de cor de pessoas... mas talvez por não os compreender muito bem, achei mais piada ao oculto... há quem acredite que temos dentro de nós uma alma, que o nosso estado de alma é o que sentimos, e que tudo o que sentimos tem uma cor... achei engraçado, já que assim seríamos sempre de muitas cores! mas para falar verdade, não liguei muito a isso, não conseguia ver, nem essas nem as outras cores... desisti então de tentar perceber! Tive em tempos uma colega que se dizia preta e que chamava de brancos alguns colegas meus. Eles pareciam não se importar, e ela também não gozava com eles. Uma vez também me resolveu chamar por uma cor. Ela sabia que eu não gostava nada da história de pessoas pretas, brancas, amarelas e vermelhas. Então disse-me, que eu, embora de pele clara, não era branca como os outros. Era cor de rosa, por ficar sempre corada. Achei graça, e essa cor, eu conseguia ver quando me olhava ao espelho depois de um momento de embaraço.
 
 
16 avril

Inútil dormir que a dor não passa...

Bom Conselho - Chico Buarque

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade

com açúcar. com afeto

 

Com Açúcar, Com Afeto

 

 

Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto
Pra você parar em casa, qual o quê!
Com seu terno mais bonito, você sai, não acredito
Quando diz que não se atrasa
Você diz que é um operário, sai em busca do salário
Pra poder me sustentar, qual o quê!
No caminho da oficina, há um bar em cada esquina
Pra você comemorar, sei lá o quê!
Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto
Discutindo futebol
E ficar olhando as saias de quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol
Vem a noite e mais um copo, sei que alegre ma non troppo
Você vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo vai bater um samba antigo
Pra você rememorar
Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança
Pra chorar o meu perdão, qual o quê!
Diz pra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado
Ainda quiz me aborrecer? Qual o quê!
Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você.

 

                                            Chico Buarque