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23 mai

= X

 
Abro a gaveta da mesa de cabeceira
raramente a uso
servia para guardar algo de que não me quisesse esquecer,
agora já não...

Abro-a na esperança de encontrar lá algo perdido há pouco tempo,
não encontro...
em vez disso encontro fragmentos do meu passado,
e por estranho que me pareça,
também do teu

Olho a folha, escrita à pressa,
talvez num momento de inspiração,
talvez num momento de desabafo,
já que para isso constumas usar o papel...

Olho o meu quarto, agora outro e diferente da altura em que guardei esta folha...

Salta-me à vista outro objecto,
algo pintado por ti,
que me deste meio à pressa,
como se não tivesse qualquer significado,
mas que por alguma razão mantive...

Olho de novo a gaveta,
cheia de tralha,
mas não é a tralha que vejo,
e sim algo que me deste,
que saboreei aos poucos
até só ficar a embalagem,
e que hoje possivelmente já está transformada numa outra coisa qualquer...

Fecho os olhos...

Sinto vontade de ouvir um cd que me deste em tempos,
nem sei onde o meti... no meio da confusão...
depois penso... penso nos momentos em que estiveste lá, e que nem me apercebi,
no meio da confusão que é a minha vida...
Relembro alguns dos momentos, em que me fizeste rir, em que me baralhaste as ideias, em que me deste a tua mão, em que me deste o ombro para encostar ou chorar, em que me deste colo, abrigo...

Hoje, voltei a lembrar-me de tudo isso...
Mas continuo sem conseguir encaixar esses fragmentos de lembranças...
É como se fosse um puzzle de duas mil peças de diferentes tamanhos,
e faltassem algumas peças no contorno e muitas no meio...
 
 
 
 
16 mai

=(

P.S.: Sou louca 
Estou só
quero estar só
a presença conduz sempre a uma ausência

 
Odeio estar só
Não quero ninguém por perto

 
preciso
mas não deixo aproximar

...

Tens que lutar pela tua independência

Precisas de perceber que és capaz

não quero

sou dependente, preciso de depender de algo...

tens medo, não és dependente
tu não deixas ninguém aproximar-se...

...

Nada me magoa realmente

claro, tu não permites que ninguém se aproxime

 ...

Eu já não me apaixono

claro, tu sentes muito a rejeição, e não sabes lidar com ela

...

Porquê essa raiva toda contra ti?

Tens direito a existir e viveres a tua vida, fazeres escolhas, seres independente...

 

  ...

 

era um tiro na cabeça e tava resolvido

Não, isso sujava...

bem visto, retirar o corpo, limpar o sangue... ía incomodar demasiado... mas pensando bem incomodamos mais estando vivos...

isso é mentira e tu és a prova viva disso...

pois, talvez, mas comigo não haveria tanto incómodo...

Para mim havia

mas como a mim nada me afecta...

Até para a semana

adeus

 

 

11 mai

«Sumi»



“Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo
quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando
melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro
antes, durante e depois de te encontrar.
Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de
lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.
Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é
covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque
sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência,
pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu
lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua
desajeitada e irrefletida permanência.” 
 
Sumi - Martha Medeiros
 
4 mai

abraça-me bem...

 

Abraça-me bem

levantas o teu corpo cansado do chão
afastas esse peso que te esmaga o coração
abres uma janela e perguntas-te quem és
respiras mais fundo e enfrentas o mundo de pé
 
eu venho de tão longe e procuro há mil anos por ti
estendo a minha mão até te sentir
não sabemos nada do que somos nós
mas sabemos tanto do que muda por não estarmos sós
 
abraça-me bem
 
levantas os teus olhos para me olhar assim
procuras cá dentro onde me escondi
e eu tenho medo, confesso, de dar
o mundo onde guardo tudo o que mais quis salvar
 
tu dizes que não há outra forma de ficarmos perto
não há como saber se o caminho é o certo
só pode voar quem arriscar cair
só se pode dar quem arriscar sentir
 
abraça-me bem
 
Mafalda Veiga - Chão
 
 
3 mai

...

 
Chegar em frente da porta de casa e parar
ficar a imaginar
a tua voz
o teu riso
imaginar que ao abrir a porta ,
de uma casa onde nunca entraste,
te encontraria lá
a tagarelar
a rir,
do teu jeito único e inesquecível
 
Fechar os olhos por alguns segundos
e poder ver-te e ouvir-te a rir
 
Suster a repiração,
ver a porta abrir-se,
e desejar tudo o que não pude conhecer de ti,
desejar o teu riso, a tua alegria,
tu a gozares comigo,
a reclamares comigo...
eu a reclamar contigo,
tu a fazeres promessas de te cuidares mais,
 só mesmo para não te melgar mais...
 
 
Depois a desilusão da tua ausência...
tentar novamente encaixar
 nesta minha cabeça oca
 que estares aqui seria impossível...
«às vezes a tristeza é tão forte que é mais fácil fingir que não houve morte»
 
...