Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Vivem pros seus maridos Orgulho e raça de Atenas
Quando amadas se perfumam Se banham com leite, se arrumam Suas melenas Quando fustigadas não choram Se ajoelham, pedem imploram Mais duras penas, cadenas
Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Sofrem pros seus maridos Poder e força de Atenas
Quando eles embarcam soldados Elas tecem longos bordados Mil quarentenas E quando eles voltam, sedentos Querem arrancar, violentos Carícias plenas, obscenas
Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Despem-se pros maridos Bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho Costumam buscar um carinho De outras falenas Mas no fim da noite, aos pedaços Quase sempre voltam pros braços De suas pequenas, Helenas
Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Geram pros seus maridos Os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade Nem defeito, nem qualidade Têm medo apenas Não tem sonhos, só tem presságios O seu homem, mares, naufrágios Lindas sirenas, morenas
Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Temem por seus maridos Heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas E as gestantes abandonadas, não fazem cenas Vestem-se de negro, se encolhem Se conformam e se recolhem As suas novenas Serenas
Mirem-se no exemplo Daquelas mulheres de Atenas Secam por seus maridos Orgulho e raça de Atenas
Estava a bela infanta No seu jardim assentada, Com o pente de oiro fino Seus cabelos penteava Deitou os olhos ao mar Viu vir uma nobre armada; Capitão que nela vinha, Muito bem que a governava. - "Dize-me, ó capitão Dessa tua nobre armada, Se encontraste meu marido Na terra que Deus pisava." -"Anda tanto cavaleiro Naquela terra sagrada... Dize-me tu, ó senhora As senhas que ele levava." -"Levava cavalo branco, Selim de prata doirada; Na ponta da sua lança A cruz de Cristo levava." -"Pelos sinais que me deste Lá o vi numa estacada Morrer morte de valente: Eu sua morte vingava." -"Ai triste de mim viúva, Ai triste de mim coitada! De três filhinhas que tenho, Sem nenhuma ser casada!..." -"Que darias tu, senhora, A quem no trouxera aqui?" -"Dera-lhe oiro e prata fina Quanta riqueza há por í." -"Não quero oiro nem prata, Não nos quero para mi': Que darias mais, senhora, A quem no trouxera aqui?" -"De três moinhos que tenho, Todos os três tos dera a ti; Um mói o cravo e a canela, Outro mói do gerzeli: Rica farinha que fazem! Tomara-os el-rei para si." -"Os teus moinhos não quero, Não os quero para mi: Que darias mais, senhora, A quem to trouxera aqui?" -"As telhas do meu telhado,
Que são de oiro e marfim."
-"As telhas do teu telhado Não nas quero para mi": Que darias mais, senhora, A quem no trouxera aqui?" -"De três filhas que eu tenho Todas três te dera a ti: Uma para te calçar, Outra para te vestir A mais formosa de todas Para contigo dormir." -"As tuas filhas, infanta, Não são damas para mi': Dá-me outra coisa, senhora, Se queres que o traga aqui." -"Não tenho mais que te dar. Nem tu mais que me pedir." -"Tudo não, senhora minha. Que inda não te deste a ti." -"Cavaleiro que tal pede, Que tão vilão é de si, Por meus vilãos arrastado O farei andar por aí Ao rabo do meu cavalo À volta do meu jardim. Vassalos, os meus vassalos, Acudi-me agora aqui!" -"Este anel de sete pedras Que eu contigo reparti... Que é dela a outra metade? Pois a minha, vê-la aí!" -"Tantos anos que chorei, Tantos sustos que tremi!... Deus te perdoe, marido, Que me ias matando aqui."
Desde pequena ouvi dizer que existem pessoas brancas, pretas, vermelhas e amarelas. E logo aí percebi que deveria ter algum tipo de daltonismo estranho ainda não descoberto, já que a única diferença da pele das pessoas de que me apercebia era o tom... Em todas as outras coisas tenho uma visão semelhante à maioria, mas as cores de pele que um ser humano pode ter sempre foram uma incógnita para mim... Talvez por isso que nunca tenha gostado muito de rótulos... Não percebia muito bem porque gozavam com o meu amiguinho e o chamavam de preto... gozar é injusto e feio... preto era uma cor que tanto os meus pais como as minhas professoras me tinham ensinado a distinguir, e eu sempre acertava, mas a cor do meu companheiro de brincadeiras eu não conseguia distinguir, não via o preto que me tinham ensinado que era a cor que eu via no escuro... o escuro assustava-me tanto... o meu amigo não... anos mais tarde, comecei a interpretar estes rótulos de cor de pessoas... mas talvez por não os compreender muito bem, achei mais piada ao oculto... há quem acredite que temos dentro de nós uma alma, que o nosso estado de alma é o que sentimos, e que tudo o que sentimos tem uma cor... achei engraçado, já que assim seríamos sempre de muitas cores! mas para falar verdade, não liguei muito a isso, não conseguia ver, nem essas nem as outras cores... desisti então de tentar perceber! Tive em tempos uma colega que se dizia preta e que chamava de brancos alguns colegas meus. Eles pareciam não se importar, e ela também não gozava com eles. Uma vez também me resolveu chamar por uma cor. Ela sabia que eu não gostava nada da história de pessoas pretas, brancas, amarelas e vermelhas. Então disse-me, que eu, embora de pele clara, não era branca como os outros. Era cor de rosa, por ficar sempre corada. Achei graça, e essa cor, eu conseguia ver quando me olhava ao espelho depois de um momento de embaraço.
Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto Pra você parar em casa, qual o quê! Com seu terno mais bonito, você sai, não acredito Quando diz que não se atrasa Você diz que é um operário, sai em busca do salário Pra poder me sustentar, qual o quê! No caminho da oficina, há um bar em cada esquina Pra você comemorar, sei lá o quê! Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto Discutindo futebol E ficar olhando as saias de quem vive pelas praias Coloridas pelo sol Vem a noite e mais um copo, sei que alegre ma non troppo Você vai querer cantar Na caixinha um novo amigo vai bater um samba antigo Pra você rememorar Quando a noite enfim lhe cansa, você vem feito criança Pra chorar o meu perdão, qual o quê! Diz pra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida Pra agradar meu coração E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado Ainda quiz me aborrecer? Qual o quê! Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato E abro os meus braços pra você.
Passei a vida a correr sem ver ao certo quem corria à minha volta ou quem simplesmente corria ao meu lado.
Agora que paro e fecho os olhos, deixando de lado os pés cansados que me guiavam nas voltas, admito que correr de olhos fechados nem sempre nos faz chegar a alguma meta.
Agora que paro a meio, sem saber como cá cheguei e, sem saber o caminho certo para correr, continuo sem saber quem corre comigo, quem corre para mim e quem corre por mim.
Continuo sem olhar, sem ver. Porque afinal juntamente com os pés também se me cansaram os olhos, também se me cansou tudo o que a cabeça segura e tudo que o peito guarda. Cansou-se-me a alma, a calma e o raio que parta a vida.
Não quero ser mais um que corre só por correr. Que corre para não estar parado. Estou cansado. Vou ficar sentado a ver-te correr à minha volta. Para mim. Por mim... Até que te canses e te sentes ao meu lado. Até que percebas que só correm os perdidos e que só se sentam aqueles que precisam ser achados.
Ele quer que eu seja estável como um rio Mas um rio não é nada estável
O que eu mais amo nos rios é Que eles são sempre tão diferentes As águas a mudar e nós a vermos
Mas porque não queremos ser assim Nós somos tão prudentes Segurança impede de nos conhecermos
Depois do rio o que é que vem? E depois do rio o que é que vem? Vou indagar Depois do rio o que é que vem? Poder olhar Gaivotas sem fim Quero sonhar
Ver o que haverá além Depois do rio o que é que vem? Para mim, só para mim
O sonho está no arvoredo ou escondido na cascata Vou ignorar o som que tanto chama Um firme casamento e marido protector Mas que não sonha e que não se inflama
Depois do rio o que é que vem? Depois do rio o que é que vem? Vou indagar Depois do rio o que é que vem? Poder olhar Para além do mar, quero sonhar Ver o que haverá além Depois do rio o que é que vem? Depois do rio o que é que vem?
Sigo o caminho mais calmo Certo como um tambor Vou casar com o Kokoum E a quimera vai e vem Eu quero ver, quero mais que um sonho Depois do rio o que é que vem?...
Adorei a tarde, como adoro todas as tardes, todos os momentos contigo... Obrigada por estes dois meses... Obrigada por estes quase dois anos... Obrigada por seres quem és... Obrigada por deixares-me conhecer-te... Obrigada por fazeres parte da minha vida... Obrigada por me deixares fazer parte da tua... Gosto de ti, quase nem preciso de o dizer... O quanto gosto de ti? Bom, já descobrimos que é impossível quantificar de acordo com qualquer medida existente... Desde aqui até à lua? É tão pouco comparado com o que me fazes sentir... mas... "gosto de ti, simplesmente porque gosto. E é tão bom viver assim!" =D
Minh'alma ardente é uma fogueira acesa, É um brasido enorme a crepitar! Ânsia de procurar sem encontrar A chama onde queimar uma incerteza!
Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa É nada ser perfeito. É deslumbrar A noite tormentosa até cegar, E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...
Aos meus irmãos na dor já disse tudo E não me compreenderam!... Vão e mudo Foi tudo o que entendi e o que pressinto...
Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora Contar, não a chorava como agora, Irmãos, não a sentia como a sinto!...
Florbela Espanca
Ouve-se uma porta bater e fechar...
Ela: Deixaram a gaiola aberta! Estás livre! Foge, voa...
Ele: Sim, estamos livres! Anda, vou mostrar-te o mundo lá fora... Vais gostar!
Ela: Não... Não posso fugir contigo... Este é o meu lugar... É aqui que sou feliz! Desculpa... Vais ter de voar sem mim...
Ele: Não! Eu quero-te a meu lado!
Ela: Estarei sempre contigo, estejas onde estiveres! Precisas de ir, rápido, antes que voltem...
Ele: Mas eu amo-te... Não me amas? Confia em mim! Vem comigo, depressa!
Ela: Sim, amo-te, meu amor... eu confio em ti... mas não posso... lá fora é o teu lugar, não o meu...
Ele: És tão parva! Sim, é o meu lugar! Não de gente estupida, como tu! Como pudeste deitar fora todo o meu amor?? És um monstro! Odeio-te! Adeus e até nunca mais!!
Ele levanta voo sob o imenso azul do céu deixando para trás aquela casa, a sua prisão...
Ela: Adeus meu amor... Ficarás para sempre no meu coração... Talvez um dia nos encontraremos novamente... Vou gravar para sempre na memória a graciosidade mágica com que voas, vives, sentes...
Ela esboça um sorriso triste e do seu rosto rolam pequenas, mas sentidas, lágrimas. A porta abre-se. Fecham a janela em sobressalto. Uma mão estende-se-lhe, e ela aceita-a de bom grado.
Lá longe, ele ouve um canto melodioso que conhece bem... Olha à distância, aquele que um dia foi o seu lar... Sorri... E voa em busca de novas aventuras...
«Que surpresa boa encontrar alguém assim, que parece reconhecer-se de uma vida anterior e que, num qualquer dia, por obra de Alguém, se reencontra e com quem se retoma algo que foi interrompido e que não passa pelo iniciar de qualquer relação, de conhecer alguém novo, de ter que descodificar constantemente o que se quer dizer... Maria era alguém a quem poderia falar de "Elefantes e Jibóias" sem que ela respondesse com "chapéus e homens sérios".» Patrícia Cruz - "Sempre como n'Areia"